Arregacei a cortina, a cidade parecia não querer acordar, mas o sol já se queria fazer ver. Empoleirei-me na varanda para observar quem descia a rua num passo apressado,
Um homem de fato preto, em passo apressado entrava na leitaria e saia de lá passados uns três minutos com um croissant na mão e com o mesmo andamento fugidio. É assim Lisboa moderna, uma correria…
A vizinha da frente apercebe-se do meu vulto já quase a fechar a janela e tenta fazer-se parecer, para meter conversa sobre a vida alheia. Mas hoje não lhe dou tempo para o seu estado de nada fazer, aceno apenas em tom de despedida.
Consegui o meu primeiro emprego, numa empresa de renome, sinto uma certa ansiedade por saber o que me espera, mas respiro fundo para não me levar pelo stress. Desço a rua, gosto deste lugar que parece ser meu, talvez por ninguém saber onde estou. Pensam que estou no estrangeiro…afinal a colecção de postais sempre teve utilidade. Sempre quis sentir-me só, talvez por ser uma entre muitos que não sabe lidar coma solidão muito bem E cá estou eu, a apanhar o meu primeiro de muitos transportes. Entro neste vazio apertado incolor, consigo ainda um lugar a janela, por ser das primeiras paragens… Gosto desta lentidão, creio que sou sempre um visitante desta passagem pela cidade velha, tudo parece novo, nunca sabemos quem irá entrar na paragem seguinte, nunca sabemos para onde vão os que ao nosso lado se sentam, até mesmo os que adormecem. Ficaram até ao fim da carreira?
Entrei, transportando todos os sonhos que levamos para algo recente, a esperança que seja melhor do que imaginamos. Estou a ser observada até ao ínfimo do meu ser pelos meus colegas, mas finjo não dar conta e quando fecho a porta do director começam os cochichos habituais. Quando saí sentei-me na mesa do bar para beber um café, e uma mulher já bem entrada virou-se para outra e disse em tom de quem quer ser ouvida: “Tem mania que é superior, só porque vai mandar na gente, ela que nem pense, porque nós já cá estamos à mais tempo”. Pego no café, pouso-o na mesa das ditas, e puxo uma cadeira… E entoou a língua delas: “ Então se estão cá há mais tempo são uma mais valia para mim, porque me vão ajudar imenso. Desconheço a história desta companhia, gostava que me contassem um pouco mais…” Sentiram-se úteis e foi o começo de uma amizade. Começaram a por nabos na púcara, dei-lhes a atenção, mas não, não lhes dei a minha opinião sobre nada que me pudesse comprometer.
A tarde, de regresso a casa, sentei-me no mesmo banco do costume e travei uma breve conversa com o senhor da jaqueta verde, um velhote já meio ensurdecido do tempo… tinha sempre uma palavra a dizer, mesmo que repetida pela falta de memória. No final apontou para a leitaria. Fui, havia um bilhete para mim que dizia: “Á mesma hora nos cruzamos todo o dia, conhecer-te seria para mim, uma alegria.” assinado: homem da gravata preta. Sorri, e Amílcar, empregado de meia idade, cuja a barriga o impedia de retirar as guloseimas da prateleira expôs com afinco a sua questão: “ vamos ter romance?” Eu simplesmente franzi, as sobrancelhas. Sorri, mas agora maliciosamente e saí.
A fechadura anda perra, devia estar cá o meu avó para concertas todos estes defeitos… a esta hora a minha mãe diria algo do género: “ Estragas sempre tudo, eu tive uma máquina de lavar que durou uma vida”. Para ela, as novas tecnologias não devem ser percebidas até passarem a ser necessariamente obrigatórias, para mim são as “intocáveis e duradouras tecnologias”, razão pela qual a solidão abarca os seus desconhecedores.
Parei para descansar a vida nos pensamentos, resolvi passar os olhos pelos álbuns d fotos, esses, que tem sido mesmo bem estimados. Toca a campainha, o meu director! Encosto-me a porta, “estou desgraçada”, pensei…abri a porta após a primeira hesitação e ficamos os dois perplexos… “ Quer entrar?” Entrou, bisbilhotando cada canto.
(continua)
Teresa Raquel,2005