Suspiros e pequenos gritos
Aquele Instituto, algumas capas negras, algumas caras pintadas, e os mesmos do costume. Desapareceram os tais que antes abraçavam por não ter mais quem abraçar. Deixaram um aroma a pinhal...
Está um calor que eu nem sempre consigo sentir, só chega para quem anda perdido em tantos corredores circulares, que nos obrigam a cruzar muitas vezes com quem menos esperamos, com quem não queremos. Ali o tempo parou, todos os relógios como numa comunhão de amizade, decidiram fazer greve. Para os que já notaram, as horas são mais vagarosas que o habitual, para os que ainda não deram conta o tempo é breve, como o início de um novo ciclo. Mas, para esses também hão de chegar as primeiras chuvas e depois o Inverno, longo e frio. Apareceram por curtos momentos, agasalhos. Mas não serão resistentes o suficiente para suportar a maior geada.
Hum, o Sol vai custar tanto a penetrar por aquelas janelas tão escassas. Tantas paredes, quase uma prisão, sem cores.
Das aulas aos intervalos, do croissante quentinho à sandocha de atum, da calma à euforia dos trabalhos, do jardim à biblioteca, o mesmo sentimento de tristeza. Fazemos parte de um ciclo onde as férias são a fase mais diminuta, e estamos nele como os animais que se devoram sem piedade. Pessoas que se devoram, por uma nota, por uma imagem, por uma inveja.
Eu já sem cérebro, sem braços, sem amor, vou ainda andado por força de um coração muito magoado, chorando e rastejando por aquele chão, que já foi pisado em tempos mais aurios, por sorrisos que não passavam de um sonho, de uma miragem, uma ilusão.
Foi assim que acordei. Nos braços de um padrinho que me acordou para o pesadelo do mundo, que é aquele. Onde caminho sem direcção. Estou sozinha, tal como cheguei. E nada do que antes conquistei perdurou, tudo se fumou, naquele tempo quebrado.
Uma escolha de vida que não foi minha, mas uma decisão que por ser minha, e só minha, me mata diariamente, com suicídios matinais, que mais do que acordar antes das 6, são a consciência de tudo o que não tenho, do amor que não vivo.
O sono e a fome. A cantina, as filas intermináveis, a mesma carne e o mesmo arroz, lá fora o vento, de uma rua também longa que me atravessa em desespero. E corro, para chegar a casa, que também fria e escura, me aumenta a agonia, a melancolia e o desespero.
A cama onde me deito, grande demais, como o tempo que espero para te ver. Já não há esperança, apenas uma cara distorcida, uma luz de lâmpada desfocada por umas lágrimas aglomeradas e um sufoco encarcerado na garganta, que por vezes se solta na Danka, como um grito de criança que ainda não sabe pelo que grita.

